
Eu não consigo subir na minha moto sem, pelo menos, capacete, luvas e jaqueta. Alguns amigos me questionam há anos: "Cara tu é muito louco em se vestir assim, em pleno verão carioca".
Eu me limito a sorrir e simplesmente me paramento todo antes de sair. É claro que me dá vontade de usar apenas um tênis, bermuda e camiseta para pilotar na cidade. Mas é aí que me vem à memória o verão de 2005.
Era um finalzinho de tarde quente do dia 17 de fevereiro, aniversário do meu filho, quando eu voltava do trabalho para casa e me preparava para subir a serra Grajaú-Jacarepaguá quando do nada uma pacada forte me atingiu ombro esquerdo.
Foi a sensação mais estranha: vi minha Tenerê 600 seguir sozinha pela pista, ouvi muitas freadas e só ouvia o capacete e todo o meu corpo se chocar várias vezes com o asfalto, como se eu fosse um boneco.
Eu fui lançado para longe da minha moto por um morador de rua que totalmente embreagado saiu em disparada pela rodovia com um saco preto enfiado no rosto.
As informações sobre como foi o acidente eu só fiquei sabendo muito tempo depois, por testemunhas do triste episódio. Prestei socorro ao homem, sem me dar conta que eu tambem estava ferido, pois meu ombro foi totalmente deslocado para as costas.
A jaqueta com proteções nos braços, costa e ombro impediu estrago maior. As luvas estavam simplesmente destruídas e minhas mãos intáctas. O capacede totalmente deformado dos lados e frontalmente, mas minha cabeça totalmente preservada.
Naquela noite fui operado para que meu ombro fosse reposto no lugar. No dia seguinte, ao ter alta do hospital compareci à delegacia para o registro do acidente. Lá fui informado que infelizmente aquele homem, que nunca saberei o nome, nem qual era a sua história, havia morrido.
Fui julgado e inocentado pelo acidente, que até hoje tem marcas profundas em minha alma. Mas quando penso em não usar qualquer equipamento por causa do calor imagino o que aquele asfalto quente do verão de 2005 teria feito comigo. Aí, me equipo e vou em paz e em segurança pilotar minha moto outra vez.