O som do motor é o que me acalma a alma

São incontáveis as viajens, experiências, festas, prazeres, noites, madrugadas e manhãs que marcaram os 30 anos vividos nas estradas com os Xavaskas do Asfalto e nas  jornadas solitárias por este país à fora.

Hoje, no entanto, o simples fato de ligar a moto, descer a rampa do edifício garagem no Centro do Rio e acessar a Dutra ou a Br 040, ou 101 já bastam para me aplacar a ansiedade e a fome de vida.

Os 66 anos que trago na garupa me tiraram muito da foça física e resistência muscular. E acad ano parece pesar dez nos amortecedores de minhas pernas, braços e costas. Mas o cheiro, as cores e o som da estrada me chamam de volta ao mundo que mais amo.

Quando fiz minha primeira viajem de moto, ainda jovem, com um bom amigo, lá no início dos anos 80, fins de 70, com uma linda e amarela Harley 125. Sequer sabia que havia a necessidade de habilitação para andar em uma motocicleta. 

Juro. Eu achava que bastava a habilitação de automóvel, pois a motocicleta pra mim não passava de uma bicicleta com motor. Ou seja, se sabe dirigir carro e anda bem de motocicleta, basta.

A meta era chegarmos em Cachoeiro do Itapemirim, onde viviam tios e primos maternos, mas não tínhamos preparo, nem dinheiro o suficiente para isso. E, às gargalhadas, eu e Wilson resolvemos voltar após chegarmos próximos a Rio Bonito. Ele tinha uma CB 400 recém lançada e adquirida na Mesbla.

Quase não conseguimos chegar em casa, pois a gasolina acabou perto de casa e a fome havia consumido os ultimos trocados de nossos bolsos vazios e fracassados. Mas, com certeza, foram naqueles dias que nasceu esse velho e apaixonado motociclista. Wilson deixou as duas rodas poucos anos depois.

Naqueles dias de juventude a motocicleta significava o poder de ir e voltar gastando pouco. E também um cartão de visitas importante para as meninas mais livres de espírito e destemidas.

Nunca fui das gangues de pegas, nem frequentava o Alto da Boa vista. Ocasionalmente aparecia por lá, em passeios, digamos, direcionados às curvas femininas. Anos mais tarde, em 1996, conheci meus atuais e eternos irmãos de estrada e de vida Milton, Volverini, Vacha, Abelha, Cabral, Chupeta, Soldado, Elias, entre outros, que fundariam e dariam alma aos Xavaskas do Asfalto, com sede na Rua do Livramento, onde ainda funciona a oficina do Milton, eterno presidente dos Xavaskas.

Naqueles dias viajar de moto significava domar motocicletas esportivas ou super Trails, a 200 kms por hora. Superar a casa dos 200 era um desafio constante para a maioria do grupo. Eu ocasionalmente chegava a essa marca e por algumas vezes a bati, chegando a 220. Mas eles me ultrapassavam como se eu estivesse parado.

E toda aquela adrenalina provocava na gente explosões de sentimentos e emoções a cada encontro, para depois sentarmos em volta de copos de cerveja, vinho ou seja la o que fosse, e darmos risadas infinitas recordando cada trecho de rodovia superados.